Participantes

Valérie Mréjen

França

(1969, Paris, França)

Aquilo que os vídeos de Valérie Mréjen têm de mais inquietante é a sua capacidade de nos revelar o cotidiano, sobre o qual achamos que já sabemos tudo. Em geral, contracenando com pessoas comuns, eles nos fazem apreender a gíria que costumamos usar, nossos jeitos e nossas repetições, os lugares-comuns da vida, dando-nos a ver as falhas e as contradições da linguagem. A sua pesquisa dá-se ao nível da relação imagem-linguagem (e também da imagem-imagem), articulando conteúdos dramatúrgicos anódinos, do cotidiano de todos nós.

Leur Histoire é um projeto de Mréjen e de Bertrand Schefer, diretor e escritor francês, que encena uma relação amorosa de um casal que fala sobre tudo e sobre nada. Enquanto o diálogo decorre, desfilam paisagens de vários lugares (memórias esparsas das viagens do casal) que nos sugerem outras camadas de leitura, friccionando a banalidade do diálogo, e dando espaço a que a nossa imaginação seja posta à prova mediante o comum.

Em seus filmes e vídeos, assim como em seus livros, existe sempre algo de cruel e doloroso que emerge de cenas anedóticas diante das quais não sabemos se devemos rir ou chorar. A artista serve-se de alguns efeitos de distanciamento (as personagens na maior parte do tempo estão sentadas, debitam frases estereotipadas, os sketches são curtos, as cenas são descontextualizadas, os “atores” parecem marionetas), que garantem a neutralidade.

Sobre Capri, realizado para a sua exposição individual na Galerie Nationale du Jeu de Paume, em Paris, 2008, Mréjen recorda que lhe interessou pensar os clichês que dizemos, a banalidade dessas sentenças, mas também aquilo que elas têm de sinceridade. “Mesmo frases do tipo Você é linda quando fica nervosa, que ouvimos por aí, são de Bergman, e entendi que não havia maus caminhos para usar os clichés porque eles retornam sempre a nós. Em Capri, fiz uma citação dos clichés de forma consciente, e isso foi uma maneira de tomar distância com estas frases usadas milhares de vezes".

 

The most disquieting thing about Valérie Mréjen’s videos is their capacity to make us aware of everyday life, about which we think we already know everything. In general, performing with common people, they make us learn the slang we customarily use, our specific manners, our repetitions, the commonplace occurrences of life, making us see the failures and contradictions of language. Her research takes place at the level of the image-language relation (and also that of the image-image), articulating anodyne dramaturgical contents, from every viewer’s daily life.

Leur Histoire is a project by Mréjen together with French director and writer Bertrand Schefer, who stages a love relationship of a couple who talk about everything and about nothing. During the ongoing dialogue, we see a procession of various places (sparse memories from the couple’s trips) which suggests other layers for the reading, clashing with the banality of the dialogue and opening a space for our imagination to be tested in light of the commonplace.

In her films and videos, as well as in her books, there is always something cruel and painful that emerges from anecdotic scenes, in regard to which we don’t know if we should laugh or cry. The artist resorts to some effects of distancing (most of the time the characters are seated, they utter stereotypical phrases, the sketches are short, the scenes are decontextualized, the “actors” look like puppets), which ensures neutrality.

Concerning Capri, held for her solo show at the Galerie Nationale du Jeu de Paume, in Paris, 2008, Mréjen remembers that she was interested in thinking about the clichés that we say, the banality of our sentences, but also that which lends them sincerity. “Even phrases of the sort You are beautiful when you get annoyed, which we sometimes hear, are from Bergman, and I understood that there are no bad paths for using the clichés because they always return to us. In Capri, I made a conscious citation to the clichés, and this was a way to gain distance from these phrases used thousands of times.”