Programação


Nossa proposição é o diálogo

 

A frase da artista mineira Lygia Clark (1920-1988) intitula uma das exposições que integram a Trienal e que busca pensar a arte como um espaço aberto ao diálogo, inclusive – ou principalmente – com o público. Ações performáticas, espetáculos teatrais e de música, vídeos, entrevistas e até jogos de futebol estão entre as plataformas propostas pelos artistas desse núcleo expositivo transdisciplinar.
De 23 de outubro a 8 de fevereiro de 2015

 

This phrase by Minas Gerais artist Lygia Clark (1920–1988) is the title of one of the exhibitions of the Trienal, which seeks to consider art as a space open to dialogue, including – or mainly – with the public. Performative actions, theatrical and musical shows, videos, interviews and even soccer games are among the platforms proposed by the artists of this transdisciplinary exhibition segment.
From October 23, 2014, through Febrary 8, 2015

 

Ao longo da primeira etapa de Frestas - Trienal de Artes, duas exposições ocuparão diferentes locais da cidade de Sorocaba. Áreas não usuais para a realização de exposições no Sesc e em espaços como o Barracão Cultural, uma loja dentro do Pátio Cianê Shopping e o salão do Palacete Scarpa receberão ações que integram Nossa proposição é o diálogo. De entrada, como reagir diante da aparente obviedade deste projeto, visto que toda proposição não faz outra coisa se não dialogar? Para onde iria a nossa proposição, que, ao se transformar em proposta, já é diálogo? Desse modo, sendo o enunciado que dá título a um conjunto de ações da Trienal algo aparentemente repleto de contradições, poderia ser útil discorrer brevemente sobre o modo como os artistas-propositores atuam com o diálogo. Nesse ponto, é importante dizer que muitos deles se situam na esteira de proposições como a exposição-não-exposição, noção inventada pelo artista Nelson Leirner em 1967 e que traduz parte significativa das intenções deste projeto. Isso porque é com essa proposição dialógica que o artista faz com que a coisa exposta deixe de ser exclusivo objeto de apreensão do sujeito. Ao propor o entrelaçamento e o embate de ambos em um evento que autorizava o público a retirar os objetos da parede e levá-los consigo em um ato de saqueamento do espaço expositivo, o artista restitui o valor do diálogo entre sujeito e objeto, que até então parecia ser definido apenas pelo modo como o primeiro poderia discorrer sobre o último. Em compensação, no caso de exposição-não-exposição, eram os objetos quem diziam o que eles haviam percebido sobre o sujeito contemporâneo. Um ano depois desta ação que encerrava as atividades do Grupo Rex em São Paulo, Lygia Clark pensava a figura do artista como "propositor", anunciando que a sua proposição é o diálogo. E isso não significa que toda proposição seja diálogo. Significa que, a despeito do excesso de diálogo sugerido ao longo do século XX, o que se produziu foi muita escassez, oriunda de processos emancipatórios infundados que vendiam gato por lebre. Entraves na obtenção da tão aclamada expressão livre foi o que mobilizou os artistas, ao longo das últimas décadas, a permanecerem interessados em resistir, em produzir diálogo a partir de contextos insólitos. Por isso, para além de encontrar na recente história das exposições no Brasil um modo peculiar de pensar o diálogo como algo inerente à prática artística, Nossa proposição é o diálogo se constitui como a conjunção de experiências heterogêneas e com isso suscita o encontro de públicos com interesses variados, fazendo com que o diálogo, empreendido no campo da arte, torne-se o ponto de partida para a abordagem ou para o confronto de ideias e realidades sedimentadas nos planos político, ético, poético, profético e social.

Identificado o lugar de onde foi extraído o substrato para esse projeto de Frestas – Trienal de Artes, é importante mencionar que as páginas ocupadas nesta publicação deverão, antes de tudo, ser labirintos para o diálogo entre o público e os artistas ao longo dos quatro meses desta etapa do projeto. Sejam as obras dispostas nos diferentes locais mencionados acima ou as salas dialógicas, configuradas como uma plataforma para um programa aberto e transdisciplinar, tudo deve funcionar por meio de um processo de embaralhamento da noção de diálogo, comumente entendido como o processo de fala e escuta, e vice-versa. As proposições dialógicas se configurarão como uma constelação de ações insólitas capazes de engendrar experiências em territórios onde o inexistente insiste em vir à tona.

Em certo sentido, esse exercício tem por interesse encarar o campo da arte como o lugar onde as coisas não são descartadas ou descartáveis; onde é possível reciclar ideias, para então pensar o mundo por meio de paradigmas até então óbvios ou inusitados. Seria como dizer que a arte e os artistas traduzem a fala e a escuta considerando valores ambíguos para o diálogo. Valorizam o inaudível, o mudo e o gestual; pensam a escuta como fala, e a imagem como texto. Por outro lado, o diálogo corriqueiro, esteticista, politizado, intimidado, autorreferencial, adestrador, alienante, mas também o cristalizado e aquele fruto de censuras insistentes, todos poderão se tornar material para os encontros de Nossa proposição é o diálogo. Enquanto alguns artistas optam pela discrição, sugerindo ações singelas e sem grandes aparatos que distingam a arte da vida cotidiana, outros propõem complexas estruturas dialógicas que se organizam no jogo, no palco ou na rua, reunindo dezenas ou até centenas de interlocutores. Por meio de enquetes, remontagens de informações e dados históricos, de entrevistas e ações performáticas, este projeto privilegiará a presença do "público-participante", outro termo caro para a arte produzida no Brasil desde a segunda metade do século XX.

Nossa proposição é o diálogo se aproxima daquilo que, em via de desaparecimento, perdura como latência e insiste em ganhar espaço, na tentativa de conviver (ou "viver com", o que seria a mesma coisa) com a escassez para produzir conteúdo capaz de se construir neste cruzamento ainda indefinido que permeia as instâncias da vida e da arte. Por isso, o diálogo tenta reunir no dizer a extensão da linguagem.

O conjunto de ações, vídeos, proposições, campeonatos, entrevistas, debates performáticos e itinerários não faz outra coisa senão pensar a arte como uma plataforma para o diálogo. Daí o fato de Lygia Clark ter proferido esta que seria uma das principais ”desleituras" do mundo da arte. Deixando de ser exclusivamente produtor de coisas para propor ações no mundo e para o mundo, o artista passa a intervir de maneira transversal em todas as esferas da vida. Eis que o diálogo como proposição artística será apresentado em suas diferentes acepções, incluindo o silêncio, a construção de biografia, o interrogatório, a confissão e a ficção. As ações propõem o convívio com o diálogo como potência de encontro, de confusão, mas também de envolvimento e de transmissão em ruas, em transportes coletivos, em quadras de futebol, na comedoria e em espaços expositivos do Sesc, ou no improviso do cotidiano. O projeto se organiza na diferença para que, em conjunto, possa-se refletir sobre os modos com que cada situação da vida contemporânea — atravessada por expressões corporais ou mentais — seja um modo de rever lugares demarcados, referidos ou simplesmente concebidos como campo de ação para o diálogo. Dessa maneira, investigando o "inexistente" como "insistência", o projeto Frestas - Trienal de Artes tenta cruzar diferentes modos de dialogar com o nada, com o tudo, com o ínfimo e o infinito; com o atemporal e o factual. Aliás, como dialogar em silêncio, aos gritos, com gestos, olhares, palavras e imagens? Como escapar do diálogo, se é ele quem estrutura tudo o que estruturado foi, ou virá a ser? Ao mesmo tempo, onde encontrá-lo em um mundo nebuloso, maquiado e cheio de farsas ultrajantes, capazes de reinventar de maneira manipuladora a sua estrutura emancipadora em algo legítimo da mais perversa subserviência indiscriminada ou alienante? O diálogo e suas múltiplas formas de existência, ou de inexistências insistentes, é uma proposição que certamente participaria de maneira ativa da transformação do mundo com a expansão que a arte engendra desde que se viu envolvida com a problematização de processos civilizatórios, subjetivos, políticos, espirituais e poéticos, já que uma coisa não caminha, na íntegra, sem a outra.

 

Throughout the first phase of Frestas – Trienal de Artes, two exhibitions will occupy different places in the city of Sorocaba. Unusual areas for the holding of exhibitions at SESC and in spaces such as the Barracão Cultural, a store in Pátio Cianê Shopping, and the main hall of the Palacete Scarpa will host actions that are part of Nossa proposição é o diálogo. First of all, how to react in regard to the apparent obviousness of this project, seeing that the entire proposition is nothing else than to dialogue? What would be the thrust of our proposition, which, upon being transformed into a proposal, is already a dialogue? Thus, since the statement that serves as a title for a set of actions of the Trienal is apparently full of contradictions, it could be useful to briefly discuss the way that the artist-proposers operate with dialogue. At this point, it is important to say that many of them are situated in the wake of propositions such as the exposição-não-exposição [nonexhibition exhibition], a notion invented by artist Nelson Leirner in 1967, and which conveys a significant part of the aims of this project. This is because it is with this dialogic proposition that the artist makes the exhibited thing stop being exclusively an object apprehended by the subject. By proposing the interlacing and clashing of the two in an event that authorized the public to remove the things from the wall and carry them off in an act of pillaging the exhibition space, the artist restored the value of the dialogue between subject and object, which up to then seemed to be defined only by the way in which the former could talk about the latter. In compensation, in the case of exposição-não-exposição, it was the objects that told about what they had perceived about the contemporary subject. One year after this action that closed the activities of Grupo Rex in São Paulo, Lygia Clark thought about the figure of the artist as a “proposer,” announcing that her proposition is the dialogue. And this does not mean that every proposition is a dialogue. It means that, despite the excess of dialogue that arose throughout the 20th century, what was produced was very scarce, arising from groundless emancipatory processes that were selling a pig in a poke. Obstacles in the obtainment of the so much acclaimed free expression was what drove the artists, throughout recent decades, to remain interested in resisting, in producing a dialogue based on unusual contexts. For this reason, beyond encountering in the recent history of exhibitions in Brazil a peculiar mode of thinking about dialogue as something inherent to artistic practice, Nossa proposição é o diálogo is constituted as the conjunction of heterogeneous experiences and thus brings about the encounter of publics with different interests, thus causing the dialogue, undertaken in the field of art, to become the starting point for either the approach or confrontation of ideas and realities grounded on the political, ethical, poetic, prophetic and social planes.

Now that the origin of the substrate for this project of Frestas – Trienal de Artes has been identified, it is important to mention that the pages occupied in this publication should, above all else, be labyrinths for the dialogue between the public and the artists throughout the four months of this phase of the project. The artworks shown in the different places mentioned above, as well as the events of dialogue, configured as a platform for an open and transdisciplinary program, should all function by means of a process that shuffles the notion of dialogue, commonly understood as the process of speaking and listening, and vice versa. The dialogic propositions will be configured as a constellation of unusual actions able to engender experiences in territories where the nonexistent insists on emerging.

In a certain sense, this exercise is interested in considering the field of art as a place where the things are not discarded or disposable; where it is possible to recycle ideas, to then think of the world by way of paradigms that were previously obvious or unusual. It would be like saying that art and the artists translate speech and listening while considering values that are ambiguous for the dialogue. They valorize the inaudible, the mute and the gestural; they think of listening as speech, and the image as text. On the other hand, the commonplace, aestheticist, politicized, intimidated, self-referential, training-oriented, alienating dialogue, but also the crystallized dialogue and that which results from insistent censorings, can all become material for the meetings of Nossa proposição é o diálogo. While some artists opt for discretion, suggesting simple actions without grand devices that distinguish art from daily life, others propose complex dialogic complexes which are organized in the game, on the stage or on the street, gathering dozens or even hundreds of interlocutors. Through surveys and re-mountings of information and historic data, as well as through interviews and performative actions, this project will privilege the presence of the “participating public,” another theme dear to the art produced in Brazil since the second half of the 20th century.

Nossa proposição é o diálogo approaches that which, on its way toward disappearing, persists as a latency and insists on gaining space, in the attempt to live together with scarcity to produce content able to be constructed at this still undefined crossing that pervades the instances of life and art. For this reason, the dialogue attempts to gather the extension of language in speech.

The set of actions, videos, propositions, competitions, interviews, performative debates and routes does nothing else but consider art as a platform for dialogue. This is why Lygia Clark offered this, which is one of the main “unreadings” of the art world. The artist stops being exclusively the producer of things and starts to propose actions in the world and for the world, thus intervening in a transversal way in all the spheres of life. This is why the dialogue as an artistic proposition will be presented in its different senses, including that of silence, the construction of biography, interrogation, confession and fiction. The actions propose the living together with dialogue as a potential for encounter and for confusion, but also for involvement and for transmission along streets, in mass transportation networks, on soccer fields, in food and in SESC’s exhibition spaces, or in the unplanned events of daily life. The project is organized based on difference in order that, all together, it can reflect on the modes in which each situation of contemporary life – shot through by corporal or mental expressions – is a way to take a new look at places that are demarcated, referred to or simply thought of as a field of action for dialogue. In this way, investigating the “nonexistent” as an “insistence,” the project Frestas – Trienal de Artes strives to cross different modes of dialoguing with nothing, with everything, with the infinitesimal and with the infinite; with the atemporal and the factual. For that matter, how to dialogue in silence, with shouting, with gestures, looks, words and images? How to escape from dialogue, if it is what structures everything that is already or will be structured? At the same time, where to find it in a nebulous, disguised world full of outrageous farces, able to manipulatively reinvent its emancipatory structure into something legitimate of the most perverse indiscriminate or alienating subservience? The dialogue and its multiple forms of existence, or of insistent nonexistences, is a proposition that would certainly play an active role in the transformation of the world with the expansion that art has been engendering ever since it became involved in the problematization of civilizing, subjective, political, spiritual and poetic processes, since the one thing does not go forward, wholly, without the other.