Programação


Simpósio: O inexistente é insistência

 

O simpósio de Frestas – Trienal de Artes traz à tona as reflexões suscitadas pela afirmação de que o inexistente é insistência em centros de interesse diversos – e, à primeira vista, talvez díspares. O próprio fazer artístico é marcado pela transdisciplinaridade e, portanto, orbita em torno de áreas de conhecimento variadas: do poder à poesia, da cidadania ao processo de subjetivação, da história à agroecologia. Com base nesta particularidade da arte atual, faremos do simpósio um detonador de possíveis encontros dialógicos entre a arte e a vida contemporânea.
Dias 23, 24 e 25 de abril de 2015

The symposium of Frestas – Trienal de Artes sheds light on reflections engendered by the affirmation that the nonexistent is an insistence in various – and, at first sight, perhaps disparate – centers of interest. Artistic practice itself is marked by transdisciplinarity and, therefore, revolves around various areas of knowledge: from power to poetry, from citizenship to the process of subjectification, from history to agroecology. Based on this particularity of current art, we are making the symposium a detonator of possible dialogic encounters between art and contemporary life.
23rd, 24th and 25th April 2015

 

O inexistente é insistência

Ao longo de três dias de encontros, a insistência se tornará o centro de interesse do simpósio de Frestas – Trienal de Artes. Ela será entendida como alternativa para produzir algum pensamento polifônico e heterogêneo sobre a natureza e as múltiplas identidades que constituem o inexistente, e sobre aqueles que, com ele, buscam conviver, voluntária ou involuntariamente. O projeto tem como intenção primeira redefinir o seu estatuto diante das coisas que existem, as responsáveis, em grande parte, pela insistência que define a ausência, a ignorância e a lacuna, entre outros assuntos que manipulam os valores daquilo que falta no real. Estrutura-se, de modo a pensar de que modo a arte concebe o inexistente sem passar por considerações que o qualificaria como entraves, castrações ou intangibilidade. Por isso, pensar o inexistente como insistência é a maneira para perceber o concebível e o inconcebível, o idealizável e o impraticável, o tangível e o intangível, o real e o irreal, assim como outras aparentes polaridades, elementos para a elaboração das realidades poética, social, política ou espiritual, todas ambientadas no campo expandido de significados que a arte faz caber no mundo. Nesse sentido, o simpósio reconhece que a afirmação que o nomeia é um modo de questionar o estado natural das coisas que não existem, já que é por meio delas que, em grande parte, o mundo se estrutura. Assim, ao mesmo tempo em que o sujeito participa ativamente da elaboração da identidade do inexistente, ele vê a si mesmo sendo inventado por aquilo que até então era apenas insistência. É no cruzamento existente entre a invenção e o inventor que se faz possível imaginar o lugar ambíguo ocupado por ambos no mundo. Ou seja, uma vez que o inventor de algo inexistente é alguém que conviveu com a insistência daquilo que ganhou determinada configuração no mundo, a sua invenção e postura diante do real inexistente são elementos constituintes de uma parte considerável de sua própria identidade. Em suma, ao inventar o inexistente, o sujeito passa a ser por ele reinventado. É que, sendo insistência, ele faz com que a sentença que o qualifica ou o objeto que o define, o enunciado que o concebe e até mesmo o grito que o jorra no mundo, todos se tornem campos que abarcam tanto o poder quanto a poesia. Por isso, quando os artistas cruzam assuntos díspares, envolvendo-os em diálogos aparentemente improváveis; quando esses “encontros fortuitos” propõem discussões entre a agroecologia e os processos de subjetivação, ou quando participam da construção de projetos de cidadania, elaborados com o auxílio de fragmentos anacrônicos da história ou com relatos fictícios; quando o que estiver em questão for a natureza da educação ou da espiritualidade atuais, ambas envolvidas cada vez mais em contradições produzidas pelo capital e pelo modo desmedido de calcular a entrega, a transmissão de conhecimento e a manipulação do afeto, vendo-os todos imbricados em negociações que se pautam em moedas que transformam esses valores em outro produto do mercado financeiro; quando isso tudo passa a ser matéria para lidar com o inexistente, a arte e o debate produzido em torno dela se tornam detonadores de possíveis encontros dialógicos com a vida contemporânea. O que naturalmente não desmerece a negociação que o presente mantém com temporalidades inexistentes, neste caso o passado e o futuro. Isso porque experimentar o contemporâneo sempre foi o exercício anacrônico de pensar temporalidades insistentes que definem, geralmente, o cenário e as relações estabelecidas nos dias de hoje como reação a alguns dos projetos civilizatórios, geopolíticos e simbólicos que marcaram a humanidade. Sejam eles malogrados, exitosos, infundados ou recalcados, o modo como o sujeito convive com projetos que definem o seu lugar no mundo pode ser uma alternativa de repensar o inexistente. Ou, como diz Paulo Freire em um de seus incontornáveis pensamentos sobre o inexistente: “Se a realidade impede o homem de se humanizar, a ele cabe mudar essa realidade.” Reticentes em relação à previsibilidade do futuro e à maneira como certas situações, cenários e relações que ainda virão a existir podem ser calculados ou assentados no real, os artistas se servem da inventividade, da resistência e de acontecimentos em que a linguagem poética ganha espaço para travar diálogo com o mundo, que não seria o que é sem as coisas que não existem.

 

The inexistent is an insistence

Throughout three days of meetings, insistence will be the focus of the symposium held at Frestas – Trienal de Artes. It will be understood as an alternative for producing some polyphonic and heterogeneous thoughts about the nature and multiple identities that constitute the inexistent, and about those who seek to live with it – either voluntarily or involuntarily. The project’s first aim is to redefine its relation with the things that exist, which in large part are responsible for the insistence that defines absence, ignorance and lack, among other subjects that manipulate the values of that which is lacking in the real. It is structured in a way to foster thinking about how art conceives the inexistent, without entering into considerations that would qualify it as an obstacle, castration or intangibility. To this end, thinking about the inexistent as an insistence is the way to perceive the conceivable and the inconceivable, the idealizable and the impractical, the tangible and intangible, the real and the unreal, as well as other apparent polarities, elements for the elaboration of the poetic, social, political or spiritual realities, all situated in the expanded field of meanings which are made to fit into the world by means of art. In this sense, the symposium recognizes that the statement that names it is a way of questioning the natural state of the things that do not exist, since it is through them that, in large part, the world is structured. Therefore, at the same time that the subject actively participates in the elaboration of the identity of the inexistent, he sees himself being invented by that which was previously only an insistence. It is the crossing between the invention and the inventor that makes it possible to imagine the ambiguous place they both occupy in the world. That is, since the inventor of something inexistent is someone who has lived with the insistence of that which gained a determined configuration in the world, his invention and posture in regard to the inexistent real are constitutive elements of a considerable part of his own identity. In short, by inventing the inexistent, the subject is himself reinvented by it. Insofar as it is an insistence, the sentence that describes it (or the object that defines it), the declaration that conceives it, and the shout that broadcasts it to the world are fields imbued by both power and poetry. For this reason, when the artists cross dissimilar subjects, involving them in apparently unlikely dialogues; when these “fortuitous encounters” propose discussions between agroecology and the process of subjectification, or when they participate in the construction of projects of citizenship, elaborated with the help of anachronistic fragments of history or with fictional accounts; when what is being questioned is the current nature of education or spirituality (both increasingly involved in contradictions produced by capital and by the excessive compulsion for measuring results), the transmission of knowledge and manipulation of feeling, seeing them all overlapped in negotiations based on currencies that transform these values into another product of the financial market; when all of this becomes a material for dealing with the inexistent, art and the debate produced around it gain the ability to foster possible dialogic encounters with contemporary life. Which naturally does not discredit the negotiation that the present maintains with inexistent temporalities, in this case the past and the future, insofar as that the subject’s experience of the contemporary has always been the anachronistic exercise of considering insistent temporalities that generally define the scenario and the established relations nowadays as a reaction to some of the civilizing, geopolitical and symbolic projects that have marked humanity. Whether they were failures, successful, unfounded or repressed, the way the subject lives together with projects that define his place in the world can be an alternative for rethinking the inexistent. Or, as stated by Paulo Freire in one of his mandatory thoughts about the inexistent: “If reality hinders man from being more fully human, it is up to him to change that reality.” Reticent in regard to the foreseeability of the future and to the way in which certain situations, scenarios and relations that are yet to come into existence can be calculated or couched in the real, the artists resort to inventiveness, resistance and happenings in which the poetic language gains space to carry out the dialogue with the world, which would not be what it is without the things that do not exist.