Participantes

Brígida Baltar

Brasil

(1959, Rio de Janeiro, Brasil)

A casa aparece na produção de Brígida Baltar como o lugar da ficção, no qual singelas coleções redefinem o lugar do público e do privado, do simbólico e do doméstico. Torre (1996) foi realizada a partir de tijolos extraídos da parede de uma casa onde a artista residiu. A obra faz menção à ideia ambígua de confinamento, de autoproteção e sua condição paradoxalmente desleal, tanto quanto sobre o processo paulatino de desaparecimento do sujeito enquanto atua no mundo. Com Casa de pássaro (2012), a artista se serve da estrutura arquitetônica da Escola de Artes do Parque Lage e constrói alguns anexos ao edifício original. Emprestando para a figura do artista a imagem do pássaro, a obra questiona de maneira poética a natureza de sua residência. Trata-se do vazio de incertezas ou da casa-gaiola, em que certezas são reclusas por limites condicionantes? Em que lugar é possível experimentar a incerteza e o valor do simbólico? Caso haja segurança na casa de pássaros, ela se aproximaria daquela evocada pela torre, cuja particularidade, ao final, é o confinamento?
Com O canto do pássaro rebelde (2012) e Presságio (2012), a artista apresenta árias de Carmen, ópera de Georges Bizet. Exibidas dentro de pequenas maquetes de salas de teatro, O canto do pássaro rebelde também evoca o confinamento, anunciando o valor do amor como sendo aquele que não conhece a lei. De fato, personagens fantásticos vagueiam por uma densa floresta, encarando o espectador, incitando-o a trilhar a ambígua experiência do amor boêmio. Ao fundo da sala, uma projeção apresenta Presságio, momento do terceiro ato da ópera, quando Carmen descobre em uma sessão de cartas que o amor irrestrito e aparentemente sem leis a dirige à morte. A cena acontece na fachada frontal da mesma escola-de-artes-casa-de-pássaro, lugar em que as polaridades da vida são experimentadas. Em consonância com o valor do díspar, visto como elemento para a reflexão sobre a experiência ambivalente contida no ato de deambular, as obras de Brígida Baltar expandem a noção de casa e a percebe como o lugar em que as coisas que não existem estão sempre à espreita para reconfigurar o contingente, ambientado por episódios cuja teatralidade ou performatividade descobrem os limites do gozo.

The house appears in Brígida Baltar’s production as a place of fiction, where simple collections redefine the place of the public and the private, of the symbolic and the domestic. Torre [Tower] (1996) was produced on the basis of bricks taken from the wall of a house in which the artist resided. The work deals with the ambiguous idea of confinement, of self-protection and its paradoxically unloyal condition, as well as the gradual process of the subject’s disappearance while acting in the world. With Casa de pássaro [Birdhouse] (2012), the artist makes use of the architectural structure of the Escola de Artes do Parque Lage and constructs some additions to the original building. Lending the image of the bird to the figure of the artist, the work poetically questions the nature of the former’s residence. Is it about the void of uncertainties or about the house-cage, where certainties are cloistered by conditioning limits? In what place is it possible to experience uncertainty and the value of the symbolic? If there is safety in the birdhouse, does it approximate that evoked by the tower, whose essence, after all, includes it’s being a place of confinement?
With O canto do pássaro rebelde [The Song of the Rebellious Bird] (2012) and Presságio [Presage] (2012), the artist presents arias from Carmen, the opera by Georges Bizet. Shown inside small-scale models of theater auditoriums, O canto do pássaro rebelde also evokes confinement, announcing the value of love as that which knows no law. In fact, fantastic characters wander through a thick forest, staring out at the spectator, encouraging him or her to take part of the ambiguous experience of bohemian love. At the back of the room, a projection presents Presságio, a moment of the opera’s third act, when Carmen discovers during a card-reading session that unrestricted and apparently lawless love is driving her towards her death. The scene takes place on the frontal façade of the same art-school-birdhouse, a place where the polarities of life are experienced. In consonance with the value of the unequal, seen as an element for reflection on the ambivalent experience contained in the act of strolling, Brígida Baltar’s works expand the notion of the house and perceive it as a place where the things that do not exist are always in sight to reconfigure the contingent, within the context of episodes whose theatricality or performativity disclose the limits of enjoyment. 

Josué Mattos

Obras do artista