A Trienal

Palavra do Curador

O que podem as frestas em uma superfície urbana, em contextos sociopolíticos ou simbólicos? À primeira vista, suas cisões redefinem a experiência de espaço. Dividem, reconfiguram, renomeiam as coisas e os lugares circunscritos entre as suas fronteiras. Por outro lado, há frestas que, para além de irromper uma determinada superfície e estancar sua fluidez e o modo como ela é percebida, preenchida e experimentada, suscitam, por suas quebras de paradigmas espaço-temporais, a “invenção de memórias”, assim como ações capazes de interrogar a norma, potencializar a desordem, redefinir a obsolescência e a ruína. As frestas também podem redesenhar os traços que ampliam ou restringem a cidadania, a atuação subjetiva e a decorrente emancipação do sujeito diante de situações imprevistas. Pois, como lidar com o inesperado, com o imprevisto e com o desconhecido se não os atravessando, o que não é diferente de construir frestas em suas verdades? Frestas também aparecem em relações humanas quando surgem para cindir máscaras ou para rasgar os valores cristalizados relativos ao fracasso e ao êxito no mundo contemporâneo; ao lucro e à perda, à ordem e à desordem na coletividade.

Mas as frestas no contexto da Trienal de Artes surgem, também, como uma maneira de conviver com e de traduzir o significado amplo do nome dado a esta terra pelos tupiniquins. Com o seu sufixo substantivador (aba), a cidade qualifica sorok, terra, em tupi-guarani. O sufixo faz dela uma "terra rasgada", nome do projeto realizado na década de 1990, que Frestas - Trienal de Artes busca reinventar, desta vez em diálogo aberto com o mundo. O aba de Sorocaba é o que qualifica esta terra como o "lugar da rasgadura". E como o ato abrupto de rasgar, que também pode ser visto como rompimento ou como o intervalo entre dois momentos de existência, é o que gera áreas limítrofes, que desenha as margens e o centro, que constrói marcos, incide significados peculiares para territórios vizinhos — que, por sua vez, os distancia conceitualmente —, esta trienal de artes pretende se tornar uma plataforma para que a arte se torne, efetivamente, uma interlocutora legítima no processo de formação da imagem simbólica da cidade e da região e, consequentemente, da cidadania, da construção de subjetividade e de ações poético-colaborativas capazes de ativar leituras inusitadas do mundo.

Ao longo dos meses de outubro de 2014 a maio de 2015, reuniremos artistas de diferentes partes do mundo em Sorocaba, onde serão realizados exposições, espetáculos de teatro e de música, intervenções em locais e museus da cidade, projeções de longas-metragens em nossa sala de cinema construída na rampa do estacionamento do Sesc, além de performances e ações artísticas transdisciplinares. Ocupa de maneira integral os prédios do Sesc Sorocaba, o salão do Palacete Scarpa, o Museu da Estrada de Ferro Sorocabana, o Barracão Cultural e uma loja no Pátio Cianê Shopping, encontrando frestas nestes espaços destinados a diferentes práticas. O que significa pensar a arte se infiltrando em diferentes contextos, sejam eles esportivos, políticos, históricos, sociais, educativos, econômicos, assistenciais, míticos ou fictícios. Como uma personagem aparentemente anônima, a arte produz as suas frestas no cotidiano contemporâneo e valoriza a formação livre e a produção de significados para o mundo pela via do intercâmbio e da transdisciplinaridade. Por intermédio de ações e de núcleos expositivos que aproximam os artistas de profissionais atuantes em diferentes áreas de conhecimento, com encontros dialógicos ou núcleos de pesquisa em poéticas visuais, o projeto Frestas poderá, com o engajamento paulatino de toda a cidade, participar da construção de uma cena para a arte contemporânea mundial. À primeira edição de qualquer projeto é dado o direito de sonhar, porque a história ainda não interpôs sobre ele os seus limites e as suas lacunas. Sonhemos, então, com este projeto como uma alternativa real para a configuração de outros desenhos capazes de circular os valores transdisciplinares que a arte carrega, e que o desejo move para diferentes lugares, produzindo irrupções no real, de modo a fazer com que o sujeito não saia ileso desse "lugar da rasgadura" que, em outra escala, é o mundo em que vivemos.

Josué Mattos

 

What is the potential role of gaps in an urban surface, in social political or symbolic contexts? At first sight, their schisms redefine the experience of space. They divide, reconfigure, rename the things and the places circumscribed within their borders. On the other hand, there are gaps which not only cleave a determined surface and block its fluidity and the way it is perceived, filled and experienced, but also, by their breaking of spatiotemporal paradigms, give rise to the “invention of memories,” as well as actions with the power to interrogate the norm, potentize the disorder, redefine obsolescence and ruin. The gaps can also redraw the lines that enlarge or restrict citizenship, subjective activity and the resulting emancipation of the subject in light of unforeseen situations. Because, how can we deal with the unexpected, with the unforeseen and with the unknown, except by going through them, which is the same as constructing gaps in their truths? Gaps also appear in human relations when they arise to split masks or to tear away the crystallized values related to failure and to success in the contemporary world; to profit and loss; and to order and disorder in the collectivity.

But the gaps in the context of the Trienal de Artes also arise as a way to live with and translate the broad meaning of the name given to this land by its original inhabitants, the indigenous Tupiniquins. In their language of Tupi-Guarani the name of this land consisted of the root word sorok, “land,” together with the substantivizing suffix -aba, “torn,” for an overall meaning of “torn land,” or in Portuguese, “terra rasgada,” the name of the project carried out in the 1990s, which Frestas – Trienal de Artes seeks to reinvent, this time in open dialogue with the world. The suffix -aba of Sorocaba is what qualifies this land as the “place of tearing.” And since the abrupt act of tearing, which can also be seen as a rupture or as an interval between two moments of existence, is what generates borderline areas, which draws the margins and the center, which constructs boundaries, imposes specific meanings for neighboring territories – which, in turn, distances them conceptually – this Trienal de Artes aims to become a platform for art to become, effectively, a legitimate interlocutor in the process of forming the symbolic image of the city and region and, consequently, of citizenship, of the construction of subjectivity and of the poetic-collaborative actions able to activate unusual readings of the world.

Throughout the months from October 2014 to May, 2015, we will bring together artists from different parts of the world in Sorocaba, where exhibitions will be held along with theater and music shows, interventions in different places and museums in the city, projections of feature-length films in our cinema room constructed on the SESC parking ramp, as well as performances in transdisciplinary artistic actions. It will generally occupy the buildings of SESC Sorocaba, the main hall of the Palacete Scarpa, the Museu da Estrada de Ferro Sorocabana, the Barracão Cultural and a store at Pátio Cianê Shopping, finding gaps in these spaces intended for different practices. Which means considering art as it infiltrates different contexts, whether involving sports, politics or history, or with a social, educational, economic, charitable, mythic or fictitious nature. As an apparently anonymous character, art produces its gaps in contemporary day-to-day life and valorizes the free formation and production of meanings for the world through interchange and transdisciplinarity. Through actions and exhibition segments that bring artists together with professionals active in different areas of knowledge, with meetings for dialogs or centers for research in visual poetics, the Frestas project can, with the gradual engagement of the entire city, participate in the construction of a scene for contemporary art worldwide. The first edition of any project is given the license to dream, because history has not yet imposed its limits and its lacks. We therefore dream about this project being a real alternative for the configuration of other designs able to circulate the transdisciplinary values that art bears, and which it desires to move to different places, producing eruptions in the real, in order to ensure that the subject does not emerge unscathed from this “place of tearing” which, on another scale, is the world in which we live.

Josué Mattos