Participantes

Priscila Fernandes

Portugal

(1981, Porto, Portugal / Rotterdam, Holanda)

O local impoluto onde acontece a performance de duas crianças que brincam com pequenos cubos de cores distintas é decisivo para pontuar algumas das ideias que evocam o filme Product of play, da artista Priscila Fernandes. Neutro, mas também propagandista, constrói pontos de interseção que dificultam precisamente encontrar nele um começo e um fim. Neste espaço, um menino e uma menina brincam isoladamente com os mesmos objetos, e a reação de um é contrabalanceada pelo modo como o outro reage. Assim, racionalidade e sistematização são encerrados por um riso e por um canto lírico, o que vem coroar o espaço límpido com o descompromisso poético carregado ao longo da infância. Do riso desprendido, subitamente interrompido por uma ação de grande maestria, quando a menina reproduz, não sem pequenos deslizes, um trecho da Flauta Mágica (1791), de Mozart, uma organização cautelosa de cores dá forma a geometrias, bagunçadas posteriormente em um ciclo que organiza e esparrama pelo chão os objetos.

Priscila Fernandes atraiu-se pelas pesquisas de Arnold Gesell na década de 1940, em particular sobre o seu interesse por observações realizadas em cúpulas translúcidas a partir das quais as crianças eram observadas sem perceber que estavam definindo, por meio de gestos imprevisíveis, os valores da normalidade. Com Product of play, a artista produz um comentário sobre o modo como os vícios na educação de crianças podem se tornar uma prestação de serviço à produtividade e ao domínio de técnicas regentes na fase adulta. Atenta ao fluxo estanque e à atrofia do valor simbólico inerente a todo e qualquer indivíduo, o filme percebe o jogo como outro tipo de produto de controle, deixando claro que alguém sempre permanece à espreita, vigiando os atos e a sua qualidade. No ar fica a ideia também inerente ao sujeito: o fato de poder incidir valores simbólicos distintos em um único e mesmo objeto.

 

The spotless place where two children play with small different-colored cubes is decisive for conveying some of the ideas evoked by Product of play, a film by Priscila Fernandes. Neutral, but also acting as propaganda, it constructs points of intersection that make it hard to discover the work’s beginning or end. In this space, a boy and girl play separately with the same objects, and the reaction of the one is counterbalanced by that of the other. Thus, rationality and systematization give way to laughter and lyrical singing that completes an immaculately clean space with the poetic license pertaining to childhood. The girl’s uncontained laughter is suddenly interrupted by her masterful rendition, not without some small flaws, of a passage from Mozart’s The Magic Flute (1791), while a careful organization of colors giving form to geometric shapes is thrown into utter disarray, scattered on the floor.

Priscila Fernandes was attracted by the research conducted by Arnold Gesell in the 1940s, especially his interest in observations made in translucent domes from which the children were observed without their perceiving that through their unpredictable gestures they were defining the values of normality. With Product of play, the artist produces a commentary on the way that defects in the education of children can later be of service to productivity and to the mastery of techniques prevailing in the adult phase. Attentive to the blocked flow and to the atrophy of the symbolic value inherent to any and every individual, the film perceives the game as another sort of product of control, making it clear that someone is always watching, monitoring the actions and their quality. In the air there is another idea inherent to the subject: the fact that different symbolic values can fall upon one and the same object.