Participantes

Rithy Panh

França

(1964, Phnom Penh, Camboja / Paris, França)

Com L’image Manquante (A imagem que falta), Rithy Panh reforça o seu interesse pela reconstituição de narrativas fragmentadas que assolaram a história de seu país de origem durante o Khmer Vermelho. Como um dispositivo da insistência, o cinema é percebido nesta obra ocupando o lugar para onde convergem as diferentes versões de narrativas elaboradas no mundo das contingências. De fato, uma voz narra a promessa, o discurso oficial e as veredas do regime e da vida de quem precisou anular a imagem que tinha de si para experimentar um delírio político. Por outro lado, imagens faltantes de cada cena narrada são esculpidas no barro, carregado de valor simbólico quando pensado como a origem e o destino do eu histórico-mortal. Elas refazem cenas inexistentes, imagens que não contam o outro lado da história, ou seja, a própria desilusão de uma comunidade explorada em nome de um progresso perverso, que excluía toda e qualquer manifestação do desejo e da individualização. De tom autobiográfico, o filme revela o contato do artista com o cinema já em sua infância, ainda em um país que mantinha a riqueza da tradição festiva imbuída de carga mítica. Para Rithy Panh, a memória é uma ferramenta para a concretude do inexistente. Ela serve para produzir conexões existentes entre o lá e o cá, entre a história e o futuro. O que transforma o Camboja do Khmer Vermelho numa matriz para pensar diferentes atrocidades regidas em outras circunstâncias, porém com o mesmo gosto pela exploração e destituição do sujeito, que se torna, nesses regimes, uma máquina. Cada inexistência insistente presente no filme trafega livremente pelo campo da arte, transpondo a censura e o controle de informação. E o fato de ambos transformarem a percepção de experiências atrozes faz com que cada uma dessas imagens faltantes sejam percebidas como resiliências permeadas de linguagem poética constituída por gritos sussurrantes.

 

With L’image Manquante [The Missing Picture], Rithy Panh reinforces his interest in the reconstitution of fragmented narratives that ravaged the history of his country of origin during the Khmer Rouge. As a device of insistence, cinema is perceived in this work as occupying the point of convergence for different versions of narratives elaborated in the world of uncertainties. In fact, a voice narrates the promise, the official discourse and the paths of the regime and of the lives of those who needed to annul their own self-image in order to experience a political delirium. On the other hand, pictures missing from each narrated scene are sculpted in clay, charged with symbolic value when considered as the origin and destiny of the historical-mortal self. They reconstitute inexistent scenes, pictures that do not tell the other side of the story, that is, the disillusion of a community exploited in the name of a perverse progress, which excluded any and every manifestation of desire and individualization. With an autobiographical tone, the film reveals the artist’s contact with cinema already in his childhood, even in a country that maintained the richness of festive tradition imbued with a mythical charge. For Rithy Panh, memory is a tool for the concreteness of the inexistent. It serves to produce connections that exist between the over-there and the here, between history and the future, thus transforming the Cambodia of the Khmer Rouge into a matrix for considering different atrocities enacted in other circumstances, though with the same taste for the exploitation and destitution of the subject, who in these regimes becomes a machine. Each insistent inexistence present in the film transits freely through the field of art, outflanking censorship and the control of information. And since they transformed the perception of atrocious experiences, each of these missing pictures is perceived as a resilience pervaded by whispered screams.