Programação


Ateliê aberto para a invenção do inexistente



Ao longo de todo o período de realização da Trienal, o segundo andar do prédio do Sesc Sorocaba será ocupado por um ateliê à disposição do público de todas as faixas etárias. A partir de oficinas, encontros com artistas e projetos especialmente desenvolvidos para o espaço, materiais que vão desde simples papeis e tintas até pregos e arames poderão ser usados para a construção de engenhocas, esboços, poesias e traquitanas que nunca antes existiram.
De 23 de outubro a 3 de maio de 2015

Throughout the period of the Trienal, the second floor of the Sesc Sorocaba building will be occupied by a studio available to the public of every age. Based on workshops, meetings with artists, and projects especially developed for the space, materials ranging from simple papers and paints to nails and wires will be used for the construction of contrivances, sketches, poetry and gadgets that never existed previously.
From October 23, 2014, through May 3, 2015

 

O projeto educativo da primeira edição de Frestas – Trienal de Artes foi inspirado no conceito de Ateliê Aberto. Historicamente, foi no século XVII que os artistas começaram a abrir seus espaços de trabalho para receber o público, fundando, assim, a própria ideia de exposição de artes, tal qual a concebemos hoje. Esse primeiro movimento de abrir-se para o olhar público, em um espaço até então recluso, ganhou força no século XX e transformou radicalmente o modo de pensar o locus da produção artística. Nesse momento, surgem espaços complexos que expandem essa ideia para agregar performances e eventos que também desconstroem a clássica noçãodo artista como um mero produtor de objetos. Assim foi o Cabaret Voltaire, já em 1916, que abrigou artistas refugiados da I Guerra de toda a Europa e tornou-se um verdadeiro laboratório que influenciou toda a arte ocidental, servindo como pivô para a formação do movimento Dadá.

Em referência mais próxima, Ateliê Aberto também nomeia um espaço em Campinas, desde 1997, dedicado à investigação, à idealização e ao fomento da cultura contemporânea, sempre a partir de processos intensamente colaborativos. Sua fundadora, Samantha Moreira, é uma das idealizadoras do Projeto Educativo da Trienal, junto com os artistas-educadores Ana Teixeira e Jorge Menna Barreto. Imaginamos, assim, um educativo que tem no Ateliê o seu espaço fundante e, mais ambiciosamente, de invenção do inexistente.

Fisicamente, o Ateliê Aberto para a Invenção do Inexistente ocupa todo o segundo andar do prédio do Sesc Sorocaba com oficinas, projetos especiais, atividades e imbricações da ordem da intenção e do acaso. Tal maquinário busca constituir um espaço privilegiado de leitura da Trienal, por meio de suas frestas ou a partir das obras de artistas que passarão por Sorocaba, o lugar da rasgadura. O visitante encontra, nesse ambiente, engrenagens de articulação de sua experiência na mostra. Caracteriza-se, assim, como terreno fértil para uma participação expandida nas obras da exposição, um laboratório de recepção dos conceitos vividos, agora metabolizados a partir de uma nova perspectiva: aquela do inexistente, que insiste, resiste, dexiste[1].??

Mediante encontros abertos com artistas-propositores nos espaços ocupados pela Trienal de Artes e em escolas da cidade, o público também terá condições de aprofundar seu contato com os diálogos propostos pelo evento e de ampliar seu passeio pelas Frestas abertas por uma questão que, em si, carrega muitas outras: o que seria do mundo sem as coisas que não existem? Essa interrogação nos leva a perguntar também: quais são as coisas que não existem? As coisas que nunca existiram existem? As coisas inexistentes são visíveis? O que não existe tem nome? O que não existe passa a existir quando o nomeamos? O que seria do mundo sem as coisas que não conhecemos, não inventamos, não praticamos, não descobrimos, não experimentamos?

De invenções também é feita a caixa com uma série de cartazes e adesivos, que será distribuída nas escolas da cidade. Tal material não pretende substituir a experiência da visita à exposição, mas sim multiplicar a sua poética, tornando a escola uma extensão da mostra, um lugar para novas experiências. O cartaz é um meio pensado para a comunicação pública, para o espaço da cidade. Sua história se constitui de modo ambivalente. Por um lado, está ligada ao desenvolvimento da publicidade; por outro, a estratégias de comunicação política, como os cartazes russos do início do século XX.[2]

Na “Caixa Matéria”, o cartaz é entendido como um dispositivo de mediação entre as ideias fundantes da Trienal e sua projeção enquanto matéria educativa e ação artística. Cria-se, desse modo, um revestimento-pele flexível que busca dar uma face pública ao projeto e pensar a sua relação com o entorno escolar. A escola não é vista, no entanto, como apenas um suporte para os cartazes e adesivos. A intenção é criar um jogo participativo no qual professores e alunos possam fazer uma leitura ativa do material e articular de que maneira ele será usado e disposto. Nesse sentido, a escola torna-se também um espaço da Trienal, e o material distribuído, um prolongamento da mostra para além do espaço expositivo, faz existir uma ponte entre esses dois ambientes de formação. Abre-se o Ateliê; abrem-se as escolas.

A sigla advinda da soma das letras iniciais do nome do espaço e possível apelido, Aí, revela muito sobre o espírito aventureiro de tal empreendimento, que se joga no aqui e agora, para, a partir daqui, buscar o sempre desconhecido aí. Aí é o que não está aqui, o que reside para além do horizonte familiar e que emite a brisa que nos dá o norte da criação. Aí é o espaço desconhecido onde o Outro habita, eterno enigma que pulsa e motiva o diálogo, a investigação e a invenção.

 

Ana Teixeira, Jorge Menna Barreto e Samantha Moreira

 

The educational project of the first edition of Frestas – Trienal de Artes was inspired by the concept of the Open Studio. Historically, it was in the 17th century that the artists began to open their workspaces to receive the public, thus founding the very idea of the art exhibition, as we know it today. That first moment of opening to the public eye a space which up to then have been reclusive, gained force in the 20th century and radically transformed the way of thinking about the locus of artistic production. That moment saw the rise of spaces that expanded this idea to add performances and events that also deconstruct the classical notion of the artist as a mere producer of objects. This was the case of the Cabaret Voltaire, which opened in 1916 and sheltered artist refugees of World War I from all over Europe and became a true laboratory that influenced all of Western art, serving as a fulcrum for the formation of the Dada movement.

In a closer reference, Open Studio – in Portuguese, Ateliê Aberto – is also the name of a space that has operated in the city of Campinas, since 1998, dedicated to the investigation, idealization and encouragement of contemporary culture, always based on intensely collaborative processes. Its founder, Samantha Moreira, is one of the conceivers of the Trienal’s Educational Project, together with the artist-educators, Ana Teixeira and Jorge Menna Barreto. We thus imagine an educational program that has the Open Studio as its founding space and, more ambitiously, a space for the invention of the nonexistent.

Physically, the Open Studio for the Invention of the Nonexistent occupies the entire second floor of the Sesc Sorocaba building with workshops, special projects, activities and overlapping activities arising by intention or chance. This machinery seeks to constitute a privileged space for the reading of the Trienal, by means of its gaps or based on works of artists who will pass through Sorocaba, the place of tearing. In this environment the visitor finds a set of gears for articulating his or her experience at the show. It is therefore characterized as a fertile terrain for an expanded participation in the exhibition’s works, a laboratory for the reception of the concepts experienced, now metabolized based on a new perspective: that of the nonexistent, which insists, resists, and dexists.[3]

Through open meetings with artist-proposers in the spaces occupied by the Trienal de Artes and in the city’s schools, the public will also have conditions for deepening its contact with the dialogues proposed by the event and for enlarging their experience in light of the gaps opened by a question that bears many others within it: What would become of the world without the things that do not exist? This question leads us to also ask: What are the things that do not exist? Do the things that have never existed exist? Are nonexistent things visible? Do things that do not exist have names? Does the nonexistent thing begin to exist when we name it? What would become of the world without the things that we don’t know about, we don’t invent, we don’t practice, we don’t discover, we don’t experience?

Also made of inventions is the box with a series of posters and stickers, which will be distributed in the city’s schools. This material is not aimed at substituting the experience of visiting the exhibition, but rather to multiply its poetics, making the school an extension of the show, a place for new experiences. The poster is a medium aimed at public communication, for the space of the city. It springs from an ambivalent history. On the one hand, it is linked to the development of advertising; on the other, to strategies of political communication, like the Russian posters of the early 20th century.[4]

In the “Material Box,” the poster is understood as a device for mediation between the Trienal’s founding ideas and their projection as educational material and artistic action. This gives rise to a flexible covering/skin that seeks to give a public face to the project and to consider its relation with the school environment. The school is not seen, however, as only a support for the posters and stickers. The aim is to create a participative game in which teachers and students can carry out an active reading of the material and articulate how it should be used and arranged. In this sense, the school also becomes a space of the Trienal, and the material distributed is a prolonging of the show to beyond the exhibition space, creating a bridge between these two environments for fostering knowledge and awareness. Thus, the Open Studio is opened; the schools are opened.

Considering the name of the Open Studio in Portuguese, Ateliê Aberto, the abbreviation given by the initial letters is Aí [the Portuguese word for “there”], which conveys a lot about the adventurous spirit of the undertaking, which deals with the here and the now as a basis for seeking the always unknown there. There is what is not here, which resides beyond the familiar horizon and which emits the breeze that gives us our bearings for creation. There is the unknown space where the Other dwells, an eternal enigma that drives and motivates dialogue, investigation and invention.

Ana Teixeira, Jorge Menna Barreto e Samantha Moreira



[1] A ideia de dexistência é uma proposição de Jorge Menna Barreto. O artista propõe a nova grafia da palavra como uma possibilidade de diálogo e atravessamento da proposta curatorial da Trienal, calcada nas noções de (não) existência e insistência. Outras palavras foram inventadas a partir da uma leitura crítica das obras presentes na exposição e também integram as atividades do Ateliê Aberto para a invenção do inexistente.

[2]Para saber mais sobre os cartazes russos, visite http://br.rbth.com/articles/2012/03/02/de_posteres_a_icones_a_trajetoria_dos_cartazes_russos_14268.html

[3] The idea of dexistence is a preposition by Jorge Menna Barreto. The artist proposes a new spelling of the word as a possibility for dialogue and for approaching the Trienal’s curatorial proposal, couched in the notions of (non)existence and insistence. Other words were invented based on a critical reading of the works present in the exhibition and are also part of the activities of the Open Studio for the Invention of the Nonexistent.

[4] To learn more about these Russian posters, visit: http://br.rbth.com/articles/2012/03/02/de_posteres_a_icones_a_trajetoria_dos_cartazes_russos_14268.html