Programação


O que seria do mundo sem as coisas que não existem?


Além de nortear o projeto curatorial da Trienal como um todo, esta pergunta/interrogação/provocação nomeia uma de suas exposições, que propõe um vislumbre quanto à potência da arte como ferramenta capaz de modificar o estado das coisas, considerando o impossível, o improvável e o inexistente como pontos de partida e não como obstáculos.
De 23 de outubro a 8 de fevereiro de 2015


Besides guiding the Trienal’s curatorial project as a whole, this question/inquiry/provocation names one of its exhibitions, which proposes a look at the power of art as a tool able to modify the state of things, considering the impossible, the improbable and the inexistent as starting points rather than obstacles.

From October 23, 2014, through February 8, 2015

 

É preciso exercitar a pausa para conviver com a frase interrogativa que funciona como um dos órgãos vitais do projeto curatorial da primeira edição de Frestas - Trienal de Artes. Encará-la de imediato pode causar náuseas. É que o mundo sem as coisas que não existem não seria mundo, e sequer existiria. Mas essa afirmação também não responde de maneira apressada à questão. Por isso, poderíamos encarar de antemão o valor da primeira parte dessa frase interrogativa, que também exclama, tanto quanto afirma. "O que seria" instaura na Trienal a condição hipotética do mundo, o que transforma o rumo e o significado das coisas e das ideias, matérias-primas para a arte e seus protagonistas. Pois, "o que seria" caso tivéssemos aquilo que não temos, caso fôssemos quem não somos, caso conhecêssemos o que não conhecemos, desejássemos outra coisa diferente daquilo que nos move? Ou, caso o tempo transcorresse de outro modo, caso a vida não fosse interrompida pela perda, pelo vazio ou por condições limite? A dimensão política da arte convive estritamente com algumas dessas condições hipotéticas e transita interferindo no modo de desejar, ao mesmo tempo em que incita o uso do desejo naqueles que o atrofiaram, ele que é o motor que move o sujeito e que faz com que descarregue a sua força simbólica no mundo. Aliás, sem o desejo não haveria mundo, o que dizer das coisas que nele não existem.

A outra consideração hipoteticamente mundial entendida nessa frase é o significado agregador de "sem". Escrita de um modo um pouco distinto no início do século passado por Paul Valéry, que pensava sobre o "que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem" e retomada pelo Lume Teatro em seu espetáculo "O que seria de nós sem as coisas que não existem" (2006), a frase foi trazida para a Trienal de Artes como um modo de pensar o mundo, dentro do qual há o sujeito, as coisas que existem e as que não existem. Porque são as coisas existentes e o sujeito que fazem pensar sobre o inexistente. Sem as coisas que existem, não seria possível, obviamente, pensarmos naquilo que não existe. E o fato de uma imagem ou um objeto serem postos do avesso, de desvelarem condições e situações limítrofes de convivência com o mundo atual — anunciando leituras e traduções do que há de invisível no contingente — traz para a arte a potência geradora de invenção ou de redefinição de paradigmas. Neste ponto, a adversidade se torna um mote, não um entrave. Diante da inexistência das coisas, de ideias e de posturas no cenário que desenha o mundo, os artistas preferem concebê-las como uma particularidade da existência. E como a arte se articula na vida, as suas descobertas e invenções se tornam intrinsicamente associadas a diferentes processos civilizatórios, os quais ganham existência ao serem conjugados com coisas que não existem. Assim, conhecimento, intuição, leituras e percepção de mundo, poesia, processos colaborativos, política e sociabilidade estariam incorporados àquilo que se define em sua inexistência temporária, ou seja, sempre serão frutos de algo inventado, descoberto, construído ou experimentado.

Tendo em vista a necessidade humana de participar da invenção ou da ressignificação da vida, O que seria do mundo sem as coisas que não existem? pretende ser um convite a pensar sobre ideias relativas à descoberta, à experiência, à invenção e à transformação do mundo e do indivíduo. Vale mencionar que, confrontados com um cenário em constante transformação, questionar o que não existe é também avaliar o modo de atuação da sociedade com o ambiente que a circunda. É encontrar um modo de abordar os problemas do Outro sem com isso partir para panfletagens partidárias, para o filantropismo infundado, ou cair no limbo da inércia ou da crítica destituída de pragmatismo. Por fim, a intenção de desenvolver um projeto dessa envergadura é fazer do inexistente o mote para as nossas ações. O "sem" associado às “coisas que não existem" transformam-nas em existências. Embora não tangenciadas, desconhecidas ou não inventadas, o "sem" as transforma em ficção, em verdades provisórias, em mentira, em furto, em camadas do real, sem fazer com que o inexistente escape de sua primeira identidade, que é a de insistir. Já que é um fato que "as coisas que não existem" existem, o "sem", em sua dupla negação juntamente com o "não", faz com que as coisas que não existem passem a existir. Vê-las como insistência é o que se pretende nesta edição de Frestas - Trienal de Artes. A insistência poética que varia entre diálogo, ruído e silêncio. Ela que é ligada ao real, que "não cessa de não se escrever" e que está sempre por ser descoberto e experimentado, o primeiro plano da arte. E, se insistir é a qualidade primária do inexistente, os artistas seriam essas figuras que não cessam de produzir convites para que o sujeito se envolva com aquilo que insiste em existir no campo expandido da arte.

 

It is necessary to instate a pause in order to come to grips with the question that functions as one of the vital organs of the curatorial project of the first edition of Frestas – Trienal de Artes. Facing it immediately could cause nausea. It’s that the world without the things that do not exist would not be a world, and would not exist. But this statement also does not provide a quick answer to the question. To do this, we could previously consider the value of the first part of this question, which is both an exclamation and a declaration. “What would become” instates in the Trienal the hypothetical condition of the world, which transforms the direction and the meaning of things and ideas, the raw materials for art and its protagonists. Because, “what would become” if we had that which we do not have, if we were what we are not, if we knew what we do not know, if we wanted something else than what moves us? Or, if time ran in a different way, if life were not interrupted by loss, by the void and by limiting conditions? Art’s political dimension goes hand-in-hand with some of these hypothetical conditions and it transits interfering in the way of desiring, at the same time that it encourages the use of the desire in those who atrophied it, it is the motor that drives the subject and which makes it unload its symbolic power in the world. Indeed, without desire there would be no world, to talk about the things that do not exist in it.

The other hypothetically worldwide consideration understood in this phrase is the aggregating meaning of “without.” Written in a somewhat different way at the beginning of the last century by Paul Valéry, who thought about “what would become of us without the help of the things that do not exist” and revisited by Lume Teatro in its play O que seria de nós sem as coisas que não existem (2006), the phrase was brought to the Trienal de Artes as a way of thinking about the world, which contains the subject, the things that exist, and those that do not exist. Because it is the existing things and the subject that give rise to the thought about the nonexistent. Without the things that exist, it would obviously not be possible for us to think about that which does not exist . And the fact that an image or object is turned inside out, that borderline conditions and situations of living together with the current world are unveiled – announcing readings and translations of what invisible things are contingent to this – gives art the power to generate invention or the redefinition of paradigms. At this point, adversity becomes a lemma, not a barrier. In light of the nonexistence of things, of ideas and of postures in the scenario that configures the world, the artists prefer to think of them as a particularity of existence. And as art is interlinked with life, its discoveries and inventions become intrinsically associated to different civilizing processes, which gain existence by being conjugated with things that do not exist. Therefore, knowledge, intuition, readings and perceptions of the world, poetry, collaborative processes, politics and sociability are embodied in that which is defined in its temporary nonexistence, that is, they will always be the results of something invented, discovered, constructed or experienced.

With a view toward the human need to participate in the invention or re-signification of life, What would become of the world without the things that do not exist? is intended as an invitation to think about ideas related to discovery, experience, invention and the transformation of the world and the individual. It should be mentioned that, as we are confronted with a scenario in constant transformation, to question what does not exist is also to evaluate the means by which society acts on its environment. It is to find a way to approach the problems of the Other without this ending up in political propaganda, groundless philanthropism, or falling into the limbo of inertia or criticism bereft of pragmatism. Lastly, the aim of developing a project of this breadth is to make the nonexistent the theme for our actions. The “without” associated to the “things that do not exist” transforms them into existences. Although they are untouched, unknown or not yet invented, the “without” transforms them into fiction, into temporary truths, into lies, into thefts, into layers of the real, without making the nonexistent escape from its first identity, which is that of insisting. Since it is a fact that “the things that do not exist” exist, the “without,” in its double negation together with the “not,” makes the things that do not exist begin to exist. To see them as an insistence is the aim of this edition of Frestas – Trienal de Artes. The poetic insistence that varies between dialogue, noise and science. That which is linked to the real, which “does not stop writing itself” and which is always ready to be discovered and experienced, the first plane of art. And, if insisting is the primary quality of the nonexistent thing, the artists are those figures who don’t stop producing invitations for the subject to get involved with that which insists on existing in the expanded field of art.